(…) João Carlos Pecci, irmão de Toquinho, havia terminado de escrever seu primeiro livro, Minha profissão é andar, no qual fala sobre sua vida após o acidente que o tornou paraplégico. Entregou o original ao irmão, que estava de partida para o Rio de Janeiro, e pediu que o lesse e fizesse suas considerações. Toquinho voltou na noite de Natal, e João indagou: “E aí, não tem nada para me dizer?” O músico tirou do paletó um fita e disse: “O que eu tenho pra te dizer está tudo nessa fita”. João estranhou que os cometários estivessem numa fita cassete, pois sabia que o irmão jamais teria paciência para gravá-los. Mas Toquinho insistia: “Está tudo aí. Ouça depois me fala”.
João ouviu a fita uma primeira vez e perdeu as contas de quantas vezes tornou a ouvir, cada vez mais emocionado, a audição naquela madrugada de Natal. “Cada vez que eu escutava, fabricava dentro de mim um novo nó, bloqueando um pranto que encheria caldeirões. Arrependi-me. Devia ter deixado vazar tudo, em forma de abraço, gargalhadas, tudo o que a distância tem-me roubado com esse irmão”.

João conservou a fita que ouvia de tempos em tempos até que a música foi gravada no disco Doce Vida…

Meu irmão
Faz muito tempo afaz
Que eu não te canto
Uma canção.
Que eu não te conto uma aventura
Um sonho, uma ilusão.
Que eu não me sento calmamente
Junto com você
O tempo passa
Meu irmão
Comigo os dias normalmente
Cumprem sua função
Entre sinuca, futebol
Amor e o violão
Mas quando o tempo escurece
vêm os temporais
E nem blasfêmias, crenças, preces
Não ajudam mais
E a gente perde a paz
Aí eu lembro de você
E essa lembrança me agiganta
Me faz vencer a dor
E quando caio me levanta
Me faz conter o tempo
E põe o mundo inteiro
Em minhas mãos
Você meu grande herói
Mais poderoso que o inimigo
Você contante amigo
Meu distante companheiro
Você que o tempo inteiro
Não tem medo do perigo, não…